Quando o sol nasce no horizonte da Riviera de São Lourenço, uma esfera
dourada se eleva sobre o mar e atravessa, sem resistência, os grandes painéis
de vidro que separam o interior da paisagem. Dentro do apartamento de
250 metros quadrados, projetado por Marina Salles Arquitetura e Interiores,
o brilho suave da manhã se espalha pelo piso em tom de areia e percorre as
superfícies brancas e de madeira.
Da sala, a vista se descortina em 180 graus sobre o balneário de águas
cristalinas em Bertioga, no litoral paulista. Tudo ali parece convergir para um
único propósito: permitir que o olhar alcance o mar, a linha do horizonte ou
a ilha distante. A luz contribui para o cenário de serenidade que traduz, em
forma e matéria, a própria natureza que circunda o edifício.
Idealizado como um refúgio de veraneio, o apartamento foi concebido para
um casal que buscava descanso, praticidade e conforto, sem abrir mão da
sensação acolhedora de uma casa à beira-mar.
Desde a primeira reunião, a arquiteta responsável, Marina Salles, compreendeu
que a arquitetura deveria refletir a harmonia entre naturalidade e leveza. O
desejo era criar uma morada capaz de trazer para o interior a serenidade do
entorno, sem recorrer a referências literais da estética náutica. A proposta
uniu a autenticidade brasileira à atmosfera solar e despretensiosa do
Mediterrâneo, traduzida nas texturas e na escolha de materiais que evocam o
encontro entre mar e terra.
O edifício, com planta irregular e diagonais marcadas, impunha desafios
técnicos. Em contrapartida, oferecia o presente mais valioso: duas fachadas
envidraçadas na área social e quartos voltados para o mar. Aproveitar essas
condições foi o ponto de partida.
A antiga varanda, que se estendia por toda a frente da sala, configurava uma
separação entre o interior e a vista. A arquiteta optou por eliminar o caixilho
que a delimitava, nivelando o piso entre os ambientes e dissolvendo fronteiras.
Com a remoção, a viga estrutural ficou aparente. Para não perder altura, o
forro não foi rebaixado até o limite inferior deste elemento; em vez disso, toda
a estrutura foi pintada de branco (vigas e pilares), destacando o desenho e
dialogando em contraste com o teto revestido por réguas de madeira.
O piso de toda a área social é em porcelanato de tom bege, em referência
direta à areia, mas também uma escolha prática e resistente à maresia. A
continuidade da aplicação reforça o caráter fluido do apartamento, onde a
setorização acontece pela disposição do mobiliário. Sala, jantar e cozinha se
integram num grande espaço linear, emoldurado pela vista.
Na extremidade do living, mais próximo da entrada, a sala de TV foi resolvida
com um móvel baixo que percorre toda a parede, desenhado com painéis
treliçados em madeira. As portas de correr permitem variar a paginação e
ocultar equipamentos quando necessário. Acima, uma prateleira de mesmo
comprimento expõe livros, objetos e peças de artesanato garimpadas de
APARTAMENTO
OEA RIVIERA
produtores locais, compondo um delicado diálogo entre design e memória
afetiva dos moradores.
O mobiliário combina ícones do design e peças autorais. O sofá ganha sarja crua
com capas removíveis, pensadas para resistir à maresia. Almofadas listradas e
trançadas reforçam o conforto despretensioso, e uma dupla de pufes convida
ao relaxamento. O conjunto repousa sobre um tapete de trama sintética. Atrás
do sofá, um aparador em madeira e fibra natural de tucum, desenhado por
Marina Salles, serve como apoio para objetos. Perto das esquadrias, quatro
poltronas em estrutura de madeira, repete lona listrada impermeável. Ao centro,
uma mesa de centro feita de tora de madeira reafirma o caráter da composição.
Diante do mar, uma poltrona cria um recanto de contemplação — pedido
especial do morador, que queria um ponto onde pudesse simplesmente
apreciar o horizonte. Em tons de bege que se fundem ao piso, a peça soma-se
à ideia de informalidade e descontração que permeia todo o projeto.
A cozinha, totalmente integrada à sala, se organiza em torno de uma ilha
central com cooktop, promovendo o convívio entre quem cozinha e quem
circula pelo estar. A base da ilha é revestida por réguas de madeira tingidas em
tom de branco, que deixam à mostra os veios — como uma pátina que evoca o
desgaste natural. O tampo em pedra de tonalidade areia se repete nas demais
bancadas, reforçando a unidade visual. Todas as arestas foram arredondadas,
gesto que aparece também nos detalhes do mobiliário.
A estrutura da ilha foi pensada como um volume contínuo, semelhante a uma
caixa que abraça o equipamento, e o tampo surge parcialmente apoiado por um
elemento vertical de seção circular que sustenta o balanço. Na composição,
banquetas Clip, de Fernando Jaeger.
Ao fundo, armários e bancadas seguem o mesmo acabamento em madeira
patinada e pedra. Um grande nicho central, emoldurado por pedra, destaca
a área de preparo, enquanto a torre de fornos e a geladeira ocupam a lateral
onde antes existia uma churrasqueira, removida a pedido dos moradores.
Entre a sala e a cozinha, um pilar estrutural de dimensões generosas foi
incorporado ao desenho, pintado de branco e funcionando como elemento de
transição. Outro pilar recebeu espelho com moldura de madeira e um carrinho-
bar desenhado pela arquiteta para sua linha de mobiliário, MS Design.
A sala de jantar se posiciona junto à grande esquadria, voltada para o mar,
e é composta por uma mesa em madeira com tampo em pedra taj mahal de
acabamento brilhante que reflete a vista, em conjunto com cadeiras Copa, de
Fernando Jaeger. O ar-condicionado foi discretamente embutido no forro, com
grelhas lineares e discretas, mantendo a pureza do desenho arquitetônico.
Nos quartos, o tom é de serenidade absoluta. O acesso à ala íntima se dá
por um corredor estreito e levemente chanfrado, que dá ritmo ao percurso.
Originalmente com quatro dormitórios, o apartamento foi reorganizado para
criar três, sendo um deles a suíte master ampliada, obtida a partir da fusão
de dois cômodos. A ideia era priorizar o conforto do casal e garantir uma
atmosfera de refúgio, onde o tempo parece desacelerar.
Na suíte, a parede principal recebeu um recorte horizontal de ponta a ponta,
formando um nicho revestido de madeira que funciona como cabeceira e
abrigo para pequenos objetos. Uma iluminação embutida percorre o vão e cria
uma luz cálida, ideal para leitura noturna. As mesas de cabeceira são fixadas
à parede, em efeito suspenso, com pequenas prateleiras inferiores, também
em madeira.
A roupa de cama, em linho e algodão, combina tons de verde e cru, evocando
as nuances da vegetação e da areia. À frente, um banco de madeira e fibra de
tucum complementa o conjunto. Acima da cabeceira, quadros com conchas do
Algarve, criados pela própria moradora, que cultiva o artesanato como hobby,
funcionam como delicadas peças de arte.
O armário da suíte master recebeu molduras brancas com portas em palha
sintética, permitindo ventilação constante — um cuidado necessário no clima
litorâneo. O desenho garante respirabilidade e ganha puxadores em madeira
maciça.
Nos dormitórios de hóspedes, a mesma linguagem se repete com variações
sutis: nichos menores nas laterais das camas substituem mesas de apoio, e
as cabeceiras estofadas em tecido listrado trazem um toque de cor discreto,
reforçado pelas almofadas. Os armários em marcenaria são abertos.
Os banheiros seguem a estética natural do restante da casa, com bancadas
em pedra de tom claro, gabinetes em madeira e nichos embutidos na alvenaria,
solução que otimiza o espaço disponível.
O apartamento se torna extensão da própria paisagem. Os detalhes, do toque
quente da madeira ao branco que amplifica a luz, do bege que remete à areia
ao ritmo natural das superfícies, reforçam a harmonia entre interior e exterior.
Aqui, o tempo parece desacelerar, e os moradores vivem a contemplação como